Miguel do Rosário
Ali jaz um nobre falido. Dorme no chão, encostado à grade da praça, em quase coma alcóolico; sujo e triste. Passam por ele, zombando de sua pose, prostitutas decadentes, feias, gordas. Ele já foi, todavia, imensamente rico. Dono do maior teatro do Brasil, o Real Teatro São João, inaugurado em 12 de outubro de 1813, freqüentado pela corte portuguesa e pela alta burguesia. Um vasto teatro com 1.020 lugares, cujas arrojadas formas neoclássicas destacavam-se no ambiente colonial e simplório da cidade. A aristocracia vinha de longe assistir às peças e óperas ali representadas por companhias nacionais e estrangeiras.
Nesse mesmo teatro, D. Pedro I, voltando de São Paulo, após a gloriosa jornada da independência, quando libertara o Brasil do jugo português, compareceu a um espetáculo promovido em sua homenagem, durante o qual a platéia gritava, a todo momento, o primeiro slogan de nossa autonomia: “Independência ou morte!”
Nosso personagem testemunharia muitos outros acontecimentos históricos importantes. Não nos apressemos, porém. Naqueles velhos tempos, ele, apesar de nobre, freqüentaria a suja taberna do Jacá, sempre que não lhe apetecia algum espetáculo, ou já o tinha visto diversas vezes. Lá conversava com os terríveis capoeiras, ex-escravos que formavam gangues e protagonizavam lutas cinematográficas nos espaços vazios do largo. Lá se inteirava das intrigas domésticas com os cocheiros que se embebedavam enquanto esperavam seus senhores saírem do teatro.
Bem, expliquemos nossa fantasia antes que tudo se complique. O nobre ao qual me refiro é a Praça Tiradentes, outrora Largo do Rocio Grande, depois Praça da Constituição, até receber o nome atual em 1889. Poucos lugares no Brasil, quiçá no mundo, atingiram um esplendor social e urbano tão brilhante, tão suntuoso, tão promissor, e depois mergulharam tão fundo na decadência. Frequentada por vagabundos, marginais e prostitutas, a Tiradentes já foi o centro intelectual, boêmio, artístico e político do Brasil.
Em seus arredores iniciou-se a boemia carioca. Teatros, cafés, tavernas, restaurantes, clubes políticos, livrarias, tipografias, jornais, tudo girava em torno da praça Tiradentes. Machado de Assis iniciou sua carreira na tipografia do mulato Francisco de Paula Brito, onde revisava e escrevia para a Marmota Fluminense, bissemanário de humor e variedades, “a favor de todos os governos”. A tipografia funcionava nos fundos de uma casa de chá, na qual se reuniam a nata da intelectualidade, e onde trabalhava um caixeiro melancólico, o nosso trágico Casimiro de Abreu. Na loja de Paula Brito, o ator João Caetano fundou a Sociedade Petalógica, que reuniu gente da estirpe dos já mencionados escritores, além de Gonçalves Dias, Martins Pena, Quintino Bocaiúva e muitos outros.
“O espaço da cidade é o espaço da história”, dizia o italiano Carlo Argan, quiçá mirando as ruínas de Roma. De igual maneira se pode olhar a Praça Tiradentes: um olhar arqueológico sobre um passado cheio de fausto, gênio, boemia, e que agora repousa enterrado sob edifícios de mau gosto, esquecido pela agitação frenética dos passantes, ofuscado pela pobreza caótica de lanchonetes populares, botequins suspeitos, lojas obscuras e sebos caindo aos pedaços.
Ali desfilavam as mulheres mais belas e elegantes da cidade. No Alcázar, situado nas adjacências, os literatos, entre os quais o jovem Machado, formavam o grupo dos “estigarríbios”, apelido derivado do coronel paraguaio Antônio Estigarríbia, que havia se rendido, com milhares de soldados, às forças brasileiras, e se aplicava janotamente a todos que se curvavam a um adversário mais forte. O adversário no caso era a deliciosa e astuta francesinha Aimée, famosa atriz do Alcázar, que só oferecia seus encantos a fazendeiros, aristocratas e altos burgueses – e tanta aflição trouxe às senhoras casadas do Rio.
Além da suja e popular taverna do Jacá, que durou ainda alguns anos, surgiram estabelecimentos de melhor nível para a boemia em formação: o Café do Braguinha, muito popular entre poetas e intelectuais; a Botica do Juvêncio, um dos primeiros bares “ideológicos do Rio”, conforme a descrição de Nelson Rodrigues, quase cem anos depois; o cosmopolita Criterium, surgido no mesmo local do Braguinha, após a demolição deste.
Em 1862, inaugurou-se a estátua de Dom Pedro I, que domina o centro da praça. A obra foi feita na França, por Louis Rouchet, cujo assistente era Auguste Rodin. Até algumas décadas atrás, a praça era aberta, sem as grades que lhe dão o aspecto agressivo de hoje. Um gramado bonito e bem cuidado ladeava os arborizados caminhos da praça e a ausência de carros em seu entorno conferiam ao ambiente uma sensação de espaço e liberdade. As primeiras e principais linhas de bondes, puxados a tração animal no começo, depois elétricos, tinham seu ponto final na Tiradentes.
Vejam! O nobre falido, o milionário que hoje se tornou mendigo, parece acordar de seu pesado sono de bêbado. Contempla algumas jovens bonitas se dirigindo a um canto da praça, entrando num sobrado e assomando à varanda, um copo de cerveja à mão. Mais uma vernissage de arte, pensa, com lágrimas de saudade nos olhos, recordando-se da belle époque, quando a praça apinhava-se de gente todas as noites, e onde mais de uma vez conhecera, saindo de uma peça, alguma bela manceba, de olhar sonhador e romântico…

