Praça Tiradentes – Jornal Arte&Política from Arissas Multimídia on Vimeo.
Arte
Arte na praça Tiradentes
Julia Pina
Sábado , 24 de abril, 14 horas, praça Tiradentes. Em frente a estátua de D. Pedro I, é erguido um inflável de cinco metros, uma bola gigante de plástico transparente cheia de penas rola pela praça, uma moça segura uma placa com a frase “se me jogares um ovo, gozarei em silêncio”, ovos voam em sua direção. Outras performances e instalações se seguirão ao longo do dia. Uma forma de arte transitiva para transeuntes. Esse evento faz parte do “Viradão Cultural” promovido pela Secretaria de Cultura em parceria com o Centro de Arte Helio Oiticica (CAHO) que fica logo ali, na rua Luís de Camões, 68.
Centro de Arte Helio Oiticica
Fundado em 1996 num antigo casarão do século XIX, o Centro de Arte Helio Oiticica está no meio povo. Prostitutas, trabalhadores, bêbados circulam livremente no seu entorno. “Essa localização é privilegiada, estamos no coração da cidade, na área do meretrício e das manifestações populares. Helio se aproximou dos espaços desprivilegiados, suas pesquisas utilizam os extratos sociais. É uma vocação poética”, afirma Dilson Miklos, gestor do centro, em entrevista ao site da Secretaria de Cultura.
Com seus parangolés e penetráveis Helio Oiticica buscava justamente o contato direto com o publico. A interação transforma a obra e o espectador.
A Gentil Carioca
Em 2003 surge a galeria de arte A Gentil Carioca, situada num sobrado da rua Golçalves Dias n°17, ali no meio do caos do Saara. Entre guarda-chuvas chineses, pipas, tecidos, videokes, e outros balangandãs , ninguém imagina que subindo a escadaria espremida entre duas lojas de quinquilharias, se encontra uma galeria de arte.
Antes de entrar, esbarramos com a enorme foto de uma mulher nua dentro de uma mala cobrindo toda a parede lateral da galeria. A obra é do cineasta Neville d’Almeida e o projeto se chama Parede Gentil. A cada edição um artista é convidado para desenvolver um trabalho para a parede externa da galeria. O trabalho permanece durante quatro meses. Para este projeto, colecionadores são convidados a patrocinar os trabalhos. A capacidade da obra de se disseminar no ambiente é tão ou mais importante que a obra em si.
Dirigida pelos artistas Laura Lima, Márcio Botner e Ernesto Neto a Gentil acredita que “tornar a arte algo público é uma chance de educar”. “Em 2004, nós fundamos a Gentil com a proposta de difundir a diversidade da arte no Brasil e no mundo. É muito significativo ocuparmos um espaço no Centro Histórico do Rio de Janeiro, nas costas do Saara, o maior mercado aberto da América Latina, com árabes, judeus… Mostramos os trabalhos de jovens artistas, realizamos um intercâmbio cultural, tudo isso reflete esse espaço. Ocupar os arredores da Praça Tiradentes é o grande grito”, diz Botner em entrevista ao site da Secretaria de Cultura.
Largo das Artes
O investimento na educação também é fundamental para Martha Pagy, e o psicanalista Miguel Sayad idealizadores projeto Largo da Artes. Localizado no Largo de São Francisco de Paula com seus 500 metros quadrados e pé-direito de até 7 metros o espaço é ideal para abrigar obras de grande porte. ,
O espaço cultural nasce com o desejo de participar da revitalização social e urbana em curso no centro antigo da cidade. As atividades do Largo das Artes se encaixam em três programas: centro de produção, exibição e difusão da arte e cultura, plataforma de lançamento de ações educativas e centro de referência para a recuperação da história do Largo de São Francisco.
“Há a vantagem para galeria e para o espaço urbano. Para a galeria tem a importância de estar no centro urbano, que interferimos. Vários espaços urbanos foram recuperados através da arte. Nós buscamos contribuir com o entorno, colaborando para a melhoria do bairro. Por exemplo, o policiamento está melhor e também houve mudanças no sistema de luz. Nós podemos ajudar o poder público”, afirma Martha Pagy.
Durex
Situada num sobrado da Praça Tiradentes, em cima da Livraria São José, a Durex Arte Contemporânea, inaugurada em julho de 2007, é uma galeria coletiva. “Optamos por mostrar uma arte menos convencional, que provoque discussões sobre a contemporaneidade. Há artistas premiados e artistas em início de carreira, o trabalho tem de ser bom” diz o curador Marcos Dana. Ele acredita que o fato da galeria estar situada no centro da cidade, longe da zona sul, permite a apresentação de propostas mais ousadas, menos convencionais.
Marcos acredita no fortalecimento do pólo cultural que reúne esses quatro centros de arte . Sempre que possível inauguram exposições no mesmo dia e promovem eventos conjuntos.
A praça está aberta, é só chegar.
“Onde eu tô, filha? Eu tô onde o rato perdeu a família.”
Bruno Dorigatti e Miguel do Rosário
Zona de baixo meretrício, freqüentada por personagens de João Antônio, a Praça Tiradentes é muito mais que isso. Nem todos sobrados ainda estão de pé, mas alguns fora reformados. O Centro Cultural Bidu Sayão, por exemplo, onde foi a moradia da famosa cantora lírica, deve reabrir logo. O Centro de Referência do Artesanato ganhará sede no prédio de esquina em frente ao Batalhão da PM. O comércio ocupa outros sobrados, além de sebos e uma loja que conserta instrumentos musicais. O agito noturno segue na ativa com o Hotel Paris, que troca o sexo proletário do dia por festas de uma nova geração que redescobriu o centro do Rio.
O descaso, porém, persiste, com o cheiro nada agradável impregnado em todo seu entorno. A grade que a circunda, afasta e segrega os transeuntes; colocada em 1996, não teve aprovação dos comerciantes do local, que sequer foram consultados. Um dos portões segue quebrado e, por mais que a praça seja aberta nos dois lados, até às 18h durante a semana e 17h aos sábados, as pessoas preferem contorná-la. A estátua ao centro traz D. Pedro I sobre seu cavalo, dando o grito de independência, cercado por índios e animais que representam quatros importantes regiões brasileiras e seus principais rios: Amazonas, Paraná, São Francisco e Madeira. Em março de 2010, a Secretaria de Cultura da cidade publicou no Diário Oficial nova licitação para retomar a urbanização do local. Estão previstos RS 2,5 milhões para esta nova etapa. Alguns terminais de ônibus suburbanos devem deixar a praça. O projeto de transformar em moradia popular alguns dos sobrados da região, no entanto, segue parado.
A primeira vez
Crônica
Luiz Octavio Guimarães
Todo dia era a mesma coisa, o ônibus saía pela Dom Gerardo, contornava a Praça Mauá e descia toda a avenida Rio Branco. Diferente dos outros, o ônibus três era o único em que todas as crianças tinham que permanecer por todo o trajeto, do colégio até em casa, em silêncio. O inspetor Paulo não tolerava o barulho das crianças, animadas por causa do término das aulas. A única alternativa de canalizar a ansiedade acumulada era observar o mundo que se passava por fora das janelas da condução.
Diferente do interior em que todos os alunos estavam organizados em seus devidos lugares, quietos e uniformizados, o centro do Rio era heterogêneo. As pessoas se espremiam nas estreitas ruas enquanto uma criança, com seus onze anos, procurava adivinhar o motivo de suas pressas e necessidades que as levavam naquele lugar inóspito onde todos esbarram uns nos outros sem produzir calor humano . O ônibus acelerava pela larga avenida e os rostos sem expressão se multiplicavam pela janela, dificultando o passatempo do estudante no seu momento mais solitário.
Um dia, o motorista resolveu mudar o caminho, não contornou a praça Mauá, seguiu em frente pela Rodrigues Alves, acredito que queria cortar o engarrafamento atravessando a região portuária até o início da avenida Passos que desembocaria na Lapa e adeus Centro da cidade. Para o jovem estudante eram novos mistérios, com novos personagens, a serem desvendados. Estava animado com a nova rota de fuga dos problemas escolares e por isso passou a prestar atenção nesse caminho alternativo, vai que algum dia ele precisaria.
Nesta parte centro as ruas são mais vazias, era mais fácil de prestar atenção nas figuras que, ao invés de andar apressadas, perambulavam pelas estreitas ruas do Rio Antigo. Esses personagens era mais interessantes, mais alegóricos. O fluxo de pessoas só aumentava quando a av. Passos cruzava com o mercado do Saara, só que, ao invés dos milhares de ternos o quê se via eram milhares de sacolas, para depois voltar as selecionadas personalidades, como um mendigo deitado na rua com um cachorro lambendo seu dedo do pé, ou então um grupo de malandros observando a sua próxima presa.
Foi quando o ônibus parou no sinal vermelho na esquina da Praça Tiradentes, o tempo ideal de construir histórias mirabolantes sobre os transeuntes, mas uma personagem não estava indo de um lugar para outro. Parada na porta de um bar onde alguns se embebedavam, ela parecia não ter pressa, como eu, apenas olhava as pessoas passando pelas calçadas que respondiam seus olhares, principalmente os homens, cada um com uma expressão singular. Sua postura era diferente das outras, com roupas curtas e provocantes deixava transparecer o seu experiente corpo. Foi quando ela olhou para dentro do ônibus e percebeu que um dos alunos, do colégio católico só para meninos, olhava com muita curiosidade para ela. Queria saber o que ela estava pensando na hora. Foi a primeira vez que vi a malícia nos olhos de mulher.
Vai cabelo?
O comércio que transformou a Praça Tiradentes no lugar mais cabeludo do Rio de Janeiro
Camila Lopes
“Quer cabelo, ném?” Se você já passou mais de uma vez pela Praça Tiradentes e redondezas, com certeza alguém já lhe abordou com essa pergunta. A idéia é que você compre ou venda cabelos e alimente um pouco mais o comércio recente de um produto que por suas características – humanas – foge lindamente da tributação pesada do Rio de Janeiro. O lucro é certo, já a procura é inspirada em rainhas de bateria, subcelebridades e personagens de novela – lembra da Geisy, a garota da minissaia? Qual foi a primeira coisa que ela fez quando virou manchete? Alongou os cabelos! Por no mínimo R$ 350 e no máximo R$ 3.500, uma mulher – ou homem – sai da Praça Tiradentes com ares de Rapunzel ou, na pior das hipóteses, igual ao Capitão Caverna.
“Se você levar o meu papelzinho lá no salão, no quarto andar, eu ganho uma comissão, diz a garota propaganda/promotora/panfletista de um dos salões que vendem – mas não aplicam – os alongamentos. É a mesma da primeira abordagem, o panfleto informa que “cabelos em geral, tecemos e vendemos” e a comissão da moça é de dois reais, mas somente se o cliente que ela levar até o local comprar a mercadoria. É tudo muito bem dividido, quem vende cabelo não aplica e quem aplica não vende. Em uma das lojas, os cabelos ficam na vitrine expostos junto com o sonho da maioria das mulheres brasileiras em ter longos fios. No entanto, somos um país de vários povos e, mais ainda, estamos no Rio de Janeiro, estado com forte predominância de pessoas negras, a maioria da clientela. “O cabelo da mulher negra é crespo e frágil, só com alongamento que ele chega até a cintura. O da Juliana Alves, da Vânia Love é tudo alongamento”, explica Vanessa a gerente da loja, com 15 anos de tradição. Ambas “celebridades”, uma ex-BBB e a outra rainha de bateria de alguma escola de samba são mulatas tipo Sargentelli, com cabelos cacheados que chegam até as suas cinturas cor de chocolate. “Tudo alongamento”, lembra Vanessa. Aliás, faz sentido, a garota propaganda da loja, que exporta cabelos até para Angola e Suíça. Viviane Araújo, rainha de bateria do Salgueiro e ex-mulher do cantor de pagode e ex-presidiário, Belo.
Há também as pessoas que perderam seus cabelos devido a tratamentos de combate ao câncer, como a quimioterapia. “Ih, tem muito, é uma situação difícil, mas elas podem brincar com perucas, muitas chegam com foto de atrizes e dizem que querem um cabelo igual”, conta Vanessa. Cabelo, cabelo, cabelo. Vá ao edifício de número 10 da Praça Tiradentes e veja que do 2º ao 6º andar é um show de garotas de shortinhos e megahair – nome gringo do alongamento. No salão do Nelson – 2º andar –, só se faz aplicação. “Para o seu cabelo, assim lisinho, recomendo que os fios sejam implantados com cola, vai ficar lindo no dia do casamento, nem vai parecer que não é seu.” Nelson é interpelado no ato de me convencer por sua própria cliente: “Não faz isso, não, seu cabelo é liso, você não precisa.” aconselha Marta, que havia acabado de aplicar o megahair no salão do Nelson. A verdade é que o megahair de Marta, em estilo permanente afro, ficou perfeito.
Ainda no número 10 da Tiradentes, no 6º andar só há venda de cabelos. Todos chamados “salões de cabeleireiro”, apesar de alguns desses estabelecimentos não fazerem os devidos serviços de um salão. A vendedora, assim como a cliente Marta, me aconselha a não alongar os meus cabelos e apresenta como alternativa grampos com madeixas que podem ser aplicados e retirados sem dano. Eu pergunto que dano seria esse, mas ela desconversa. A alternativa dos grampos com cabelos é cara e custa R$ 1.500. Apesar do alto valor desses serviços, curiosamente a maior parte das clientes pertencem às classes C e D. E para pagar é no cartão de crédito. Quem não tem um hoje em dia? Quanto mais cabeluda a fulana, imagina-se que é maior o limite do cartão de crédito dela. Madeixas e parcelas se combinam muito bem nessa praça dos cabelos. Loira do tipo Barra da Tijuca, negras exóticas, senhoras carecas. O cabelo é delas, a Praça Tiradentes também, onde compram e vendem os fios em um espetáculo no mínimo curioso para alguém que não tem a ambição de se transformar em Rapunzel e nem talento para ser madrinha de bateria.
Fotos: Clarissa Pivetta (ver coleção completa).
Um papo com José Orlando Rangel Machado, o Orlando “Vinil”.
Primeira coluna da seção: “O ilustre desconhecido”
Durante muito tempo o cumprimentava somente à distância. Sempre o via trabalhando, o tempo inteiro. Catando latinha, vendendo discos, livros, se virando. Há pouco tempo, aproximei-me mais dele. Descobri que ganhou um bolsa de estudos na PUC para estudar cinema. Descobri um homem extremamente culto. Com idéias originais sobre o mundo e a vida, com sonhos imensos. Ele ainda luta muito para sobreviver, vendendo seus discos de vinil. Ainda tem uma estrada longa de luta à sua frente, mas ele parece forte o suficiente para enfrentar o desafio. É o primeiro entrevistado de nossa seção com pessoas que, apesar de (por enquanto) desconhecidas, são ilustres para nós. Se você quer um vinil raro, de qualidade, pode encontrá-lo nas noites de quinta e sábado nos bares da Lapa, sobretudo no Paulinho, na esquina entre a Riachuelo e Lavradio. Alguns trechos da entrevista.
Orlando, fala um pouco sobre a sua vida.
Nasci na Praça Mauá, no hospital dos Servidores do Estado. Sou carioca. Tenho orgulho de ter nascido no Rio, que é muito lírico. Gosto dessa coisa lírica. Minha vida foi muito difícil. Depois eu fui pro subúrbio. Meu pai trabalha com geladeira, é mecânico de refrigeração. Minha mãe não tem estudo. Foi difícil porque eles não sabiam o que eu queria em termos de cultura.
Tem lembranças da sua infância?
Estudei o primeiro grau em Ricardo de Alburquerque, perto de Deodoro. Lá eu gostava de fazer rimas, gostava da Língua portuguesa. Aí eu conheci um rapaz, que depois virou padre, e me deu muita força nisso. Eu era um moleque irascível e selvagem, mas fazia poesia. Essa coisa da poesia que me deixou pronto para observar mais o mundo a meu redor.
A poesia fui uma escola paralela. Passei pelo ginasial, segundo ano, mas sempre a poesia me levou a conhecer autores que me encantavam, porque debatiam questões que não eram debatidas pelo pensamento comum.
Nessa época, quais autores mais te chamaram a atenção?
Niezsche, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato ainda criança e adolescente, e Vinicius de Moraes.
Conte mais sobre sua família.
Eu tenho duas irmãs. Sou o mais velho. Com essa coisa de ter três mulheres em casa, aprendi muito sobre a sensibilidade das mulheres. Admiro muito as mulheres. Não seria nada sem elas. Aconteceu de eu ficar muito protegido em casa. E a primeira vez que eu saí para rua, foi para brincar de polícia e ladrão, que era muito popular na época. Aí fui pra rua. Comecei a brincar de bola de gude, de carniça, soltar pipa. Foi um outro mundo para mim. Não era mais uma pessoa apenas sensível, um garotinho da mamãe. Agora era um guerreiro também. O bicho pegou então. Tive que ralar para ser reconhecido. Briguei muito. Apanhei muito, mas também bati muito. Geograficamente, meu mundo cresceu. Antes meu mundo era só dos muros para dentro de casa. Tinha empregada, foi até uma experiência que eu tive, sexualmente.
Você transou com sua empregada?
Claro, não ia comer por quê. Foi meu aprendizado sexual. Aliás, é meu conselho aos mais jovens. Tem empregada? Coma. É uma experiência única. Eu tinha oito anos. Ela tinha 17 anos. Comi embaixo da cama. Porque minha mãe queria me dar uma surra, eu me escondi, ela veio junto. Ela era muito linda. Depois disso eu fiquei muito tempo sem transar. Eu era tímido, poeta, queria aquela musa. Tinha problemas no colégio. Tinha várias amigas, mas nos finalmente não comia ninguém. E
só pensava em estudar. Estudava dia e noite. Gostava muito de ler. Poesia, história também. E a história que mais me emocionava era a grega. E um pouquinho da história egípcia.
Então, a questão é que meu mundo foi ampliando, conhecendo mulheres de verdade, pessoas de verdade. Antes eu era criado por mulheres, numa situação em que a mãe comandava. Depois eu passei a comandar minha vida.
Quando é que você conseguiu a sua independência?
A partir dos 14 anos. Aí começou minha vida marginal. De rua. Eu saía para São João de Meriti. Que era muito longe de Ricardo de Alburqueque. Era o começo do Heavy Metal no Brasil. Tinha um cara do Catete que montou um bar e botou a galera para curtir a nova onda do som que surgia, que era Led Zepellin, Black Sabath, Jimi Hendrix. Eu queria conhecer o mundo. Ali foi um grande sinal para mim. Porque eu conheci um cara que vendia discos. Ele ficava a noite inteira conversando com as pessoas e vendia discos.
Bom, nessa época eu já colecionava discos. Comprava muito. Comprava dele mesmo. Só que ele não gostava muito de cultura, esse rapaz chamado Roberto Carlos. Ele conhecia os discos, mas não tinha cultura. O negócio dele era só vender. Mas eu aprendi muito com ele.
Eu me lembro que eu tinha mil discos só de heavy metal. Inclusive nessa época eu fui heavy metal, eu ia pro clube e tal.
Eu colei com as pessoas do PT, da CUT. Como eu era poeta, eu já pensava nas questões iluministas, de verdade, fraternidade, liberdade, e fui conhecendo algumas pessoas do PT antigo, do PCB, do PCdoB, e fui me envolvendo. Na marcha das Diretas Já, eu vendi jornais do PT. Vendia todos os jornais. Lutei muito pela Diretas Já. Me empolguei muito. Era bem ativo.
Entrei pro grêmio do colégio. Colei com um pessoal do teatro, que até hoje trabalha nessa área, são bem remunerados. Só que eu não quis, porque eles eram classe média e eu era classe pobre. Eles moravam perto do Méier. Eu, para estudar no segundo grau, tinha que pular o muro da estação para chegar ao colégio. Meus pais nunca puderam me ajudar nos meus estudos. Para ir ao Méier, também. Se fosse hoje, eu não poderia estudar.
Na época, estudar numa faculdade nem fazia parte de nossos sonhos. Não era sequer comentado. O colégio não dava força. Meu sonho era me formar no segundo grau, fazer um curso técnico e conseguir um trabalho técnico.
Foto: Clarissa Pivetta (ver coleção completa).
Tiradentes, tantas recordações…
Miguel do Rosário
Ali jaz um nobre falido. Dorme no chão, encostado à grade da praça, em quase coma alcóolico; sujo e triste. Passam por ele, zombando de sua pose, prostitutas decadentes, feias, gordas. Ele já foi, todavia, imensamente rico. Dono do maior teatro do Brasil, o Real Teatro São João, inaugurado em 12 de outubro de 1813, freqüentado pela corte portuguesa e pela alta burguesia. Um vasto teatro com 1.020 lugares, cujas arrojadas formas neoclássicas destacavam-se no ambiente colonial e simplório da cidade. A aristocracia vinha de longe assistir às peças e óperas ali representadas por companhias nacionais e estrangeiras.
Nesse mesmo teatro, D. Pedro I, voltando de São Paulo, após a gloriosa jornada da independência, quando libertara o Brasil do jugo português, compareceu a um espetáculo promovido em sua homenagem, durante o qual a platéia gritava, a todo momento, o primeiro slogan de nossa autonomia: “Independência ou morte!”
Nosso personagem testemunharia muitos outros acontecimentos históricos importantes. Não nos apressemos, porém. Naqueles velhos tempos, ele, apesar de nobre, freqüentaria a suja taberna do Jacá, sempre que não lhe apetecia algum espetáculo, ou já o tinha visto diversas vezes. Lá conversava com os terríveis capoeiras, ex-escravos que formavam gangues e protagonizavam lutas cinematográficas nos espaços vazios do largo. Lá se inteirava das intrigas domésticas com os cocheiros que se embebedavam enquanto esperavam seus senhores saírem do teatro.
Bem, expliquemos nossa fantasia antes que tudo se complique. O nobre ao qual me refiro é a Praça Tiradentes, outrora Largo do Rocio Grande, depois Praça da Constituição, até receber o nome atual em 1889. Poucos lugares no Brasil, quiçá no mundo, atingiram um esplendor social e urbano tão brilhante, tão suntuoso, tão promissor, e depois mergulharam tão fundo na decadência. Frequentada por vagabundos, marginais e prostitutas, a Tiradentes já foi o centro intelectual, boêmio, artístico e político do Brasil.
Em seus arredores iniciou-se a boemia carioca. Teatros, cafés, tavernas, restaurantes, clubes políticos, livrarias, tipografias, jornais, tudo girava em torno da praça Tiradentes. Machado de Assis iniciou sua carreira na tipografia do mulato Francisco de Paula Brito, onde revisava e escrevia para a Marmota Fluminense, bissemanário de humor e variedades, “a favor de todos os governos”. A tipografia funcionava nos fundos de uma casa de chá, na qual se reuniam a nata da intelectualidade, e onde trabalhava um caixeiro melancólico, o nosso trágico Casimiro de Abreu. Na loja de Paula Brito, o ator João Caetano fundou a Sociedade Petalógica, que reuniu gente da estirpe dos já mencionados escritores, além de Gonçalves Dias, Martins Pena, Quintino Bocaiúva e muitos outros.
“O espaço da cidade é o espaço da história”, dizia o italiano Carlo Argan, quiçá mirando as ruínas de Roma. De igual maneira se pode olhar a Praça Tiradentes: um olhar arqueológico sobre um passado cheio de fausto, gênio, boemia, e que agora repousa enterrado sob edifícios de mau gosto, esquecido pela agitação frenética dos passantes, ofuscado pela pobreza caótica de lanchonetes populares, botequins suspeitos, lojas obscuras e sebos caindo aos pedaços.
Ali desfilavam as mulheres mais belas e elegantes da cidade. No Alcázar, situado nas adjacências, os literatos, entre os quais o jovem Machado, formavam o grupo dos “estigarríbios”, apelido derivado do coronel paraguaio Antônio Estigarríbia, que havia se rendido, com milhares de soldados, às forças brasileiras, e se aplicava janotamente a todos que se curvavam a um adversário mais forte. O adversário no caso era a deliciosa e astuta francesinha Aimée, famosa atriz do Alcázar, que só oferecia seus encantos a fazendeiros, aristocratas e altos burgueses – e tanta aflição trouxe às senhoras casadas do Rio.
Além da suja e popular taverna do Jacá, que durou ainda alguns anos, surgiram estabelecimentos de melhor nível para a boemia em formação: o Café do Braguinha, muito popular entre poetas e intelectuais; a Botica do Juvêncio, um dos primeiros bares “ideológicos do Rio”, conforme a descrição de Nelson Rodrigues, quase cem anos depois; o cosmopolita Criterium, surgido no mesmo local do Braguinha, após a demolição deste.
Em 1862, inaugurou-se a estátua de Dom Pedro I, que domina o centro da praça. A obra foi feita na França, por Louis Rouchet, cujo assistente era Auguste Rodin. Até algumas décadas atrás, a praça era aberta, sem as grades que lhe dão o aspecto agressivo de hoje. Um gramado bonito e bem cuidado ladeava os arborizados caminhos da praça e a ausência de carros em seu entorno conferiam ao ambiente uma sensação de espaço e liberdade. As primeiras e principais linhas de bondes, puxados a tração animal no começo, depois elétricos, tinham seu ponto final na Tiradentes.
Vejam! O nobre falido, o milionário que hoje se tornou mendigo, parece acordar de seu pesado sono de bêbado. Contempla algumas jovens bonitas se dirigindo a um canto da praça, entrando num sobrado e assomando à varanda, um copo de cerveja à mão. Mais uma vernissage de arte, pensa, com lágrimas de saudade nos olhos, recordando-se da belle époque, quando a praça apinhava-se de gente todas as noites, e onde mais de uma vez conhecera, saindo de uma peça, alguma bela manceba, de olhar sonhador e romântico…


